"Como pode alguém tornar-se um pensador sem passar pelo menos um terço do dia sem paixões, pessoas e livros?"

Nietzsche (1882)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

The Big Shade


Ah, que momento prazeroso e relaxante é o ritual de limpeza; talvez este seja o mais ansiado por nós, humanos; é um quase renascimento, fênix, onde as impurezas impregnadas são levadas através do ralo, simples assim. E essas impurezas podem ser sim, de ordem fisiológica, genética, social, étnica, política. E essa busca pela pureza também inclui, muitas vezes, até esta própria pessoa quem escreve.
O cineasta Martin Scorsese
Essa quase brincadeira “self-positivista” foi inteligentemente dirigida por Martin Scorsese, em um de seus primeiros filmes, o curta “The Big Shave”, de 1967. O uso da estética extremamente ‘clean’, sempre simbolizada pelo excesso da cor branca, o jazz suave no  plano de fundo, um homem (branco e aparentemente bem cuidado) entra no banheiro para fazer a barba... tudo nos leva a pensar que estamos diante de mais um estereotipado comercial de TV, com a intenção de vender algum produto de higiene pessoal; no entanto, da primeira gota de sangue até as cenas explícitas de automutilação, percebe-se que, além da fachada de bom-mocismo, de civilização ilibada, seja o que for, existem seres consumidos, pesados, ardentes que nem o sangue jorrado, mortos pelo excesso (ou falta) de civismo.
Seria esse o "grande" destino da civilização humana? Um pouco de humor negro não faz mal...
Seria ingênuo achar que este curta poderia ficar preso a um determinado evento histórico no tempo (afinal, o título alternativo deste, “Viet ‘67”, permitia essa visão; não é à toa que o objetivo principal do filme é criticar metaforicamente a participação massiva norte-americana na Guerra do Vietnã, a qual levou à morte quase 60 mil homens), já que a sujeira (e o ato de livrar-se dela), em todas as épocas, é apenas uma questão de perspectiva.