Caos. Qual o sentido, a vantagem dessa teoria? É que a partir desta, que é resultado, a propósito, de múltiplas ordens, somos capazes de aplicar pontos de vista diferentes e inesperados para cada situação muitas vezes dogmática, fazendo de nós, mortais, seres multifacetados e céticos a qualquer crença preestabelecida. Não, este não é um prelúdio a um discurso ateísta. Mas pode ser útil como um “plano de ação” para interpretar com sensatez um filme tão cheio de nuances e sensualidade que é “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, exibido em nove cidades brasileiras durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2010.
O enredo se situa na glamurosa e atraente Paris das primeiras décadas do século XX, curiosamente, no início da decadência de sua belle époque. O escândalo e o furor causados pela música e coreografia da composição “Le Sacre Du Printemps” (A Sagração da Primavera), de Igor Stravinsky, considerado pela grande maioria presente um ato de imoralidade, servem de pano principal para o início de um relacionamento – mesmo que distante – entre Coco Chanel, ainda uma simples empresária, e aquele compositor então “revolucionário”. Sete anos depois, Coco, agora estilista influente, viúva e rica, decide bancar a carreira de Igor, este que passava por dificuldades financeiras com a sua família, além de ter uma esposa constantemente doente, com tuberculose. Daí iniciaria-se um tórrido affair (o uso da palavra ‘tórrido’ é sim, intencional, como contraposição às sinopses que sempre seguem a linha do amor romântico, o que definitivamente não existe nesse filme) entre os dois artistas; um fervente cenário para ambientar a fase mais criativa daqueles dois seres.
Bom, até agora parecemos nos deparar com mais uma história de triângulo amoroso, de infidelidade masculina, onde este sempre sai com sua integridade por cima; uma versão de roteiro linear mais tragável, aceitável por uma sociedade tradicional (em pleno século XXI). Mas alguns pontos precisam aqui ser considerados. Primeiro: a mulher. Coco, interpretada lindamente por Anna Mouglalis, apresenta-se não com uma figura ressentida com seu passado e reprimida pelos convencionalismos, e sim como alguém sujeita de si mesma, que realmente sabia assumir seu papel de mulher no Reino Animal (sim, não nos esqueçamos dessa nossa condição): um ser “antes de tudo forte” (lembrando Euclides da Cunha), ousado, incapaz de sentir algum tipo de culpa por provocar uma separação conjugal; para ela, sexo é concretista, e verdadeira paixão só pela subversão, seja na moda – seu maior campo de atuação – ou nos brios masculinos. E ela se permitia sim, ser má.
Segundo: o homem. É fato que Igor Stravinsky (Mads Mikkelsen) dotava de uma mente visionária, a frente do seu tempo, que sabia usar da influência clássica para chocar os ouvidos da maioria. Musicalmente falando. Em confronte, havia também outro personagem coexistindo – um cristão ortodoxo, casado com uma mulher submissa, quatro filhos, perfeccionista, galante e de valores conservadores; em suma: um típico russo patriarca de início de século – aparentemente progressista. O embate para ele era lidar com essa dupla moral num mundo onde a 1ª Grande Guerra trouxe mudanças que não se resume apenas ao contingente populacional.
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| Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen em cena |
Terceiro: a relação. Algo que apenas a Física explica, talvez até noções de Biologia possam ter alguma influência, no entendimento do antagonismo homem-mulher, assim como o Black-and-White, onde ambos, num mesmo espaço, lutam entre si para defender seu gênero, deixando-se consumirem por uma forte atração sexual (literalmente) a fim de descobrir qual destes resistiria com mais versatilidade às opressões sociais. Agora a “simples história clichê” já não é tão clara e previsível quanto aparentava ser; pois entre duas visões contraditórias (ela querendo ser mulher e ele mantendo seu homem), existem milhares de ângulos, que se caleidoscopeiam (com a permissão do neologismo), em um sincretismo de atos primitivos e contemporâneos que realçam nosso instinto mais profundo.
Provocante; não há palavra mais ideal que sintetize “Coco Chanel & Igor Stravinsky”. Não só por colocar em pauta a questão da independência feminina tanto profissional quanto sexual (todos os méritos ao diretor Jan Kounen, o qual soube trazer o tema com bastante sutileza, sem a pretensão, todavia, de se sobrepor ao “maior reconhecimento” adquirido pela outra biografia sobre Chanel, “Coco antes de Chanel”, indicado ao Oscar 2010 por melhor figurino); como também por perceber o tamanho choque causado decorrente do fato de que muitos ainda não estão preparados para aceitar e compreender a igualdade de gêneros (herança misoneísta nossa, infelizmente), personalidades capazes de serem caóticas, de desequilibrar, de transcender – assim como foi o mito Gabrielle “Coco” Chanel.


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