"Como pode alguém tornar-se um pensador sem passar pelo menos um terço do dia sem paixões, pessoas e livros?"

Nietzsche (1882)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

“Um Ave para a arte e toda a sua força e (en)canto”

Há quem diga hoje que a música e a palavra (no sentido tanto artístico quanto estético) perderam a sua essência pueril, simples, e que estamos vivendo uma crise das composições e da indústria fonográfica em si, sendo bombardeados todos os dias com hits e jingles calculadamente criados para lucrar e causar euforia às genitálias e alienação de pensamento da massa.
Chico Buarque durante a gravação do filme

  Mas é através do filme “Palavra (En)Cantada” que se tem a percepção de que nem tudo está perdido. O documentário, lançado este ano (2009), faz uma “cronologia atemporal” da história do cancioneiro brasileiro e suas vertentes, que vão desde o rigor formal e o lirismo dos poemas provençais à simplicidade e rapidez de raciocínio dos repentistas e dos rappers; dos morros boêmios e nostálgicos do Rio às antenas dos mangues recifenses; da temática bem comportada e burguesa da Bossa em tempos de copa à ousadia e rebeldia da Tropicália em tempos de chumbo. Enfim, todas essas são apresentadas ao público charmosa e elegantemente (sem, no entanto, ser pedante ou algo do tipo) por meio de um riquíssimo e extenso acervo de imagens (para fetichista nenhum reclamar), além de ter ganhado um olhar especial de artistas consagrados como Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Jorge Mautner, José Celso Martinez, Lenine, Tom Zé entre outros, focando principalmente nessa relação íntima que existe entre a poesia e a música através dos tempos.
  
Como diria Machado, música e literatura parecem realmente “se amarem e casarem”. Tanto é que a fusão entre essas duas, como tão bem soube imprimir na película a diretora Helena Solberg, resulta no que pode se chamar de resistência cultural; esta que, ilustrada tanto pelos gêneros musicais já citados quanto por outros que não foram “lembrados” durante o filme (como o forró, por exemplo) – mas não menos importantes; além de se postar como uma contracorrente aos clichês e tendências impostas pela fonografia atual, ainda tem poder suficiente para preservar – e disseminar – o que há de melhor no brasileiro: essa malemolência, essa ginga e sensibilidade ao brincar com os sons, com as letras, com a língua. É definitivamente uma magia sonora que chega aos nossos ouvidos.
A poetisa Hilda Hilst e o músico Zeca Baleiro em cena
  
Dotado de um clima leve e despretensioso, “Palavra (En)Cantada” é destinado a ativar toda a sinestesia que há no nosso corpo (e alma, por que não). Um filme que sempre nos fará lembrar que, antes que queiramos ser uma unidade compacta, completamente bitolada à modismos e ideias sujas e ultrajantes, somos, sobretudo, mistos e únicos, e é isso que nos faz conservar nossa multiplicidade musical.

Nenhum comentário:

Postar um comentário